
A manhã estava fresca, corria uma brisa fria que parecia querer, teimosamente, não deixar que o sol a aquecesse. Entrou no café e sentou-se na mesa habitual com o pensamento disperso, quando o empregado lhe trouxe o café e a água virou a cabeça para lhe agradecer e os seus olhos cruzaram-se com os de um homem que estava sentado na mesa em frente.
- Bom dia…?
Sentia-lhe o ar inquisitivo, mas nem lhe apetecia falar.
- Bom dia Sr. Dr., não o tinha visto…
- Não? Olhou-me de frente quando se sentou…
- Devia estar a olhar em paralelo infinito, desculpe!
Tomou o café, deixou as moedas sobre a mesa e saiu com um “Até logo” entre dentes.
Quando se sentou à secretária tinha mais vontade de se ir embora que de se sentar, mas o trabalho esperava-a. Ligou o computador e o rádio, viu os mails, e começou a escrever um relatório que ainda tinha de acabar hoje, sem falta.
As palavras pareciam não lhe querer sair, estava com a cabeça dispersa, ausente, sentia-se longe e sem vontade de nada, nem o seu café matinal a animara. Fazia-lhe falta o calorzinho matinal, mas o Verão estava tão tímido!
O telefone tocou insistentemente pela 2ª ou 3ª vez, nem tinha percebido que estava a tocar…
- Pode chegar ao meu gabinete, por favor?
- Com certeza…
Deu um toque leve com os nós dos dedos na porta encostada e avançou quando ouviu uma voz do outro lado.
- Encoste a porta, por favor, e sente-se.
