sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A.1


A manhã estava fresca, corria uma brisa fria que parecia querer, teimosamente, não deixar que o sol a aquecesse. Entrou no café e sentou-se na mesa habitual com o pensamento disperso, quando o empregado lhe trouxe o café e a água virou a cabeça para lhe agradecer e os seus olhos cruzaram-se com os de um homem que estava sentado na mesa em frente.

- Bom dia…?

Sentia-lhe o ar inquisitivo, mas nem lhe apetecia falar.

- Bom dia Sr. Dr., não o tinha visto…

- Não? Olhou-me de frente quando se sentou…

- Devia estar a olhar em paralelo infinito, desculpe!

Tomou o café, deixou as moedas sobre a mesa e saiu com um “Até logo” entre dentes.

Quando se sentou à secretária tinha mais vontade de se ir embora que de se sentar, mas o trabalho esperava-a. Ligou o computador e o rádio, viu os mails, e começou a escrever um relatório que ainda tinha de acabar hoje, sem falta.

As palavras pareciam não lhe querer sair, estava com a cabeça dispersa, ausente, sentia-se longe e sem vontade de nada, nem o seu café matinal a animara. Fazia-lhe falta o calorzinho matinal, mas o Verão estava tão tímido!

O telefone tocou insistentemente pela 2ª ou 3ª vez, nem tinha percebido que estava a tocar…

- Pode chegar ao meu gabinete, por favor?

- Com certeza…

Deu um toque leve com os nós dos dedos na porta encostada e avançou quando ouviu uma voz do outro lado.

- Encoste a porta, por favor, e sente-se.

sábado, 9 de agosto de 2008

26.



- Ainda falam das mulheres…

Levantei-me para sair, Ela disse que ficava por ali, saímos em direcção ao carro e a sua mão assentou, naturalmente, sobre o meu ombro…

Tomámos um café a ver o mar, descemos à praia e passeámos descalços na areia molhada, arrastando os pés na ponta das ondas, como tanto gosto de fazer.

Apercebi-me que ainda não tínhamos perdido o contacto físico desde que saíramos do hotel, ora tinha a mão sobre o meu ombro, ora na minha cintura, ou me agarrava pela mão e me beijava os dedos, ora me afagava o rosto suavemente afastando os cabelos, ora nos beijávamos num abraço apertado… mas o contacto ainda não se perdera…

Sabia-me bem aquele toque, aquela pele diferente da minha, sentir o calor daquele corpo quase desconhecido…

Almoçámos na zona, sempre com a água por perto, ficámos sentados à mesa mesmo quando todos os outros clientes já tinham saído… bebendo pequenos golinhos e de olhos perdidos nos olhos do outro, de mão na mão…

O sol começava a pôr-se anunciando o fim daquele domingo e daquele fim-de-semana…

- Temos de ir…
- Tem mesmo de ser…?
- Claro, a vida não pára, e a sua está à sua espera, longe…
- Pois…

De regresso pela marginal a visão do rio pintado das cores do pôr-do-sol fazia-me apetecer parar o tempo…

- Silenciosa de novo…?
- Apenas a desfrutar…


Despedimo-nos já na cidade, saiu do carro para me dar um último abraço, enquanto me sussurrava ao ouvido:

- Voltamos a ver-nos?

Olhei-o nos olhos, negros, profundos…

- Tem os meus contactos…

Entrei em casa, fui largando os sapatos e a roupa e meti-me debaixo de um duche quente, quando saí tinha uma nova mensagem no telemóvel:

- Adorei… adoro-te!