segunda-feira, 14 de julho de 2008

25.

- Conheço um ou dois sitios bem interessantes para o fim em vista. Será agradável sair um pouco. Vou apenas tomar um banho rápido, se não fôr inconveniente.


Já lá vai o tempo em que os hoteis não tinham café de jeito. O dali devia ser óptimo, como tudo em geral. Percebi a mensagem. Percebi também que existia uma possibilidade muito concreta de eu estar a fazer figura de parvo, tendo servido de negaça para uma armação bem montada. A forma como ela olhava para ele dava-me uma pista ou outra para a razão da sua abordagem. apenas o facto de ele ter descido com a minha amiga me baralhou por um instante.


Já sabia o nome dela (vou chamar-lhe "Y"). Não fora dificil. Uma pequena hesitação na altura certa e as pessoas apresentam-se automáticamente.


Durante o banho, enquanto tentava "esquecer" a noite em claro, lembrava-me dela. Pensava que se tivesse ficado no quarto ela estaria ali comigo, agora. Podia sentir o seu cheiro, a sua pele, dar-lhe banho...


Não estava. Perguntas como "quem seria ela", "até quando iria ficar comigo", "seria casada?", assolavam-me o espírto. Sacudi-as. Afinal, ainda só sabia o seu nome há alguns minutos, tinha tempo para o resto. Sequei-me enérgicamente, vesti-me e desci, esperando encontrá-la à minha espera. Na verdade, continuavam as duas em amena conversa. Pareciam estar a dar-se bem. O meu "amigo", ao contrário do esperado, já não estava na sala e eu perguntava-me o que andavam aqueles dois a fazer. No fim de contas, também não tinha nada com isso...


- Vamos?


- Estávamos quase a criar raizes à sua espera!


- Ainda falam das mulheres...

domingo, 13 de julho de 2008

24.






Saí a porta do quarto e fui literalmente abalroada por um fulano alto e moreno.


O cheiro a banho acabado de tomar e a barba feita de fresco, sempre me atraíram.


Apeteceu-me meter com ele…


- É bombeiro?


- Perdão?


- Com tanta pressa pensei que houvesse fogo.


A gargalhada saiu-nos espontânea e simultânea, e os seus olhos escuros brilharam ainda mais. Entrámos no elevador e convidou-me para o acompanhar ao pequeno-almoço, quando lhe disse que ainda estava acompanhada respondeu-me, com ar sarcástico, que não tinha reparado… o seu olhar sedutor parecia rir-se…


Já na sala de refeições sentou-se sozinho perto da janela, mas virado para a mesa onde o meu “amigo” estava sentado com Ela… que fazia ela na mesa com ele…?


- Bom dia. Vejo que tem companhia, posso juntar-me?


- Estava à sua espera… deixe-me que a apresente…
o seu ar meio aflito foi evidente, nem sequer sabia o meu nome, apresentar…?


Ela estava agora vidrada no “bombeiro”, mal levantou os olhos para mim e piscou-me o olho…


- Bom dia, está muito fixa no bombeiro…


- Bom dia, bombeiro..!??


Não contive uma gargalhada, o que pareceu deixar o meu amigo ainda mais baralhado.


- Conhece-o…?

- De um encontrão no corredor… vinha com uma pressa que quase me deitava ao chão. Agora parece já não ter pressa nenhuma! Vou buscar comida, já volto.


Passei mesmo em frente do “apressadinho bombeiro” de olhos sedutores… que me seguiu até ao buffet…


- Afinal, parece que a sua companhia já arranjou outra parceira de mesa… podia ter tido a gentileza de comer comigo.


- Não me conhece… sou pouco dada a gentilezas… e para mais os seus olhos ainda não se despegaram da nossa “parceira de mesa”…


- Quem lhe diz que se despegaram de si…
disse enquanto roçava “acidentalmente” a mão nas minhas costas, provocando-me um arrepio.


Servi-me de umas frutas, um sumo, e umas fatias de queijo fresco que reguei generosamente com mel e voltei à mesa. Sentei-me a comer enquanto eles conversavam, de lado para a janela podia ver pelo canto do olho que “ele” não despegava os olhos de nós.


- Preciso de tomar um café a sério, não há por aqui um bom café?

sexta-feira, 11 de julho de 2008

23.



- Não quer sentar-se primeiro? Assim parece que veio, não pela companhia, mas para inquirir. Permita-me... o que a levou a pensar que hoje desistiria do convite?

“Imaginar que talvez não fosses mais um idiota de um D. Juan?...”

- Para começar, não entendi a motivação do convite...

“Sabe tão bem, parecer loira...”

Olhou de relance o telemóvel que dava sinal. Os olhos denunciaram a hesitação. Escreveu apressado, como quem escreve um qualquer recado sem importância.
“Disfarças bem mas não convences”

- Já nos tinhamos visto no Moinho “Ai já?? Pensei que estavas atento ao beijo...” (esboçou um sorriso irónico que lhe terá passado despercebido porque continuava a frase apesar de o telemóvel dar sinal novamente) depois aqui, ainda por cima com quem... “já estás a meter o nariz onde não és chamado!” Achei giro a coincidência “Ou temeste ser denunciado?” e tive vontade de a conhecer. Não foi nada racional. “Ah pois não, que ideia?!” Apenas um impulso. Foi má ideia?

Estava visivelmente nervoso e ficava ridículo naquele papel de descontração forçada. “Homens!! Nem precisam de livro de instruções! Têm um rótulo na testa a indicar sempre a próxima sacanice” Sorriu para suster o riso e soltar a tensão que lhe provocava a recordação da mensagem que ele lhe enviara “Vamos jogar. Amo-te!” Há quanto tempo não faziam aquele jogo...

- Parece que os nossos “amigos” desceram juntos. Digo-lhes para nos fazerem companhia ou ainda está irritada com ele?

- Raramente me irrito, o médico disse-me que prejudica gravemente o meu umbigo!
– tinha de dizer um disparate qualquer para soltar o riso e a tensão, sem levantar suspeitas - Amigos? Ele? Desculpe, não percebi...

- O seu marido... Você ontem estava a discutir com ele no bar, por ele a ter perseguido...

- Deve estar a fazer confusão...

- ??? Foi o que você disse...

- Então peço-lhe desculpa, devia estar a pensar no livro que estou a escrever e confundi a conversa.

- Mas o seu marido?... Aquele homem com quem estava no bar?...

- Agora é você quem deve estar a fazer confusão.

“Aposto que os teus neurónios andam à estalada uns aos outros”

Não ouviu mais nada. Enrolou o cabelo nos dedos, como fazia sempre que estava tensa. Ali estava ele, mais charmoso que nunca, naqueles olhos que o polo azul tornava ainda mais negros como o cabelo, ainda húmido. Conseguia sentir-lhe o cheiro mesmo à distância. Um arrepio percorreu-lhe o corpo ao imaginar-lhe o toque. Sentiu a excitação crescer quando ele a fitou. A figura dele ofuscava o mundo em redor de tal forma que não a deixou ver a mulher que se aproximava...

- Bom dia. Vejo que tem companhia, posso juntar-me?

Nem lhe permitiu perceber a atrapalhação que provocara no interlocutor que tentava apresentá-las sem saber o nome de uma ou de outra.

terça-feira, 8 de julho de 2008

22.


O telefone vibrou ao mesmo tempo que emitia um sinal discreto: "SMS"


- Conseguiu sair sem me acordar :-)


- Não tomei banho. Ainda estou a cheirar a si.


- Estava assim tão farto da minha companhia?


- Não consegui dormir. Você desmaiou com a primeira claridade. Vim para o terraço ver o alvorecer.


- Onde está?


- Dê-me um momento por favor.


Senti que estava a ser indelicado com a minha companhia de ocasião que, no entanto, se esforçava por ignorar a troca de mensagens.


- Parece que os nosso "amigos" desceram juntos. Digo-lhes para nos fazerem companhia ou ainda está irritada com ele?

sexta-feira, 4 de julho de 2008

21.

Pediu simplesmente um café e uma tosta, que não chegou a acabar, porque a raiva não o deixava engolir. Não estava irritado por a ter encontrado ali, mas sim por ela ter duvidado dele. Segui-la era a última coisa que faria na vida. Não se andavam a entender bem, mas nunca duvidou dela, nem pensou que algum dia ela duvidasse dele.

Tinha saudades do riso contagiante dela, do seu sorriso sincero e, pensando bem, era sobretudo pelo actual sorriso amarelo, pelo semblante indiferente e pela ausência de intimidade e diálogo, que os últimos meses lhe provocavam um mau humor crescente.

Adormeceu a pensar na mulher. Embora ele discordasse sempre, ela própria afirmava que não era bonita, simplesmente interessante.

Cativava a postura assumida naquele corpo delgado e seguro, mas o que realmente atraía eram os olhos, grandes e expressivos, duma face emoldurada por um longo cabelo desalinhado. Todo o rosto se iluminava quando a boca sorria, desde o brilho dos olhos aos lábios vermelhos. Era nessa altura, que a comum e vulgar silhueta, se transformava numa mulher atraente e esbelta.

O busto pequeno ganhava firmeza, os caracóis, que sacudia entre os dedos, soltavam-se no movimento descontraído de ombros e cabeça e toda ela ganhava uma luminosidade onde sobressaía o olhar requintado.

Devia ter-lhe calado as acusações com um beijo e as dúvidas com as mãos ávidas de desejo do corpo dela, mas optara erradamente por sair irritado e ofendido.

Despertou com o sol a bater-lhe na cara e o som do telemóvel a vibrar na madeira da mesa-de-cabeceira.

Tenho saudades do homem por trás da aparência rude...

Podes ir-te embora ou podes conquistar a desconhecida como há 5 anos...


Pestanejou, sentou-se na cama e leu as duas mensagens, repetidamente, para ter a certeza que estava acordado. Num golpe de mestre, puxou para o lado o lençol branco com letras bordadas, saltou da cama e correu para a banheira, enquanto pensava Vamos jogar! Amo-te!

Com o cabelo negro ainda molhado, agarrou a carteira e o telemóvel e saiu acelerado, esbarrando com o mulherão que passava em frente à porta do seu quarto.

- Perdão!

- É bombeiro?

- Perdão?

- Com tanta pressa pensei que houvesse fogo
– respondeu-lhe ela com uma gargalhada sarcástica.

Riram-se ambos enquanto entravam no elevador, olhos nos olhos.

- Quer acompanhar-me na primeira refeição do dia?

- Seria um prazer, mas penso que ainda estou acompanhada.

- Perdoe-me, não reparei
– respondeu ele enquanto olhava irónico em redor e a porta do elevador se abria.

Facilitou-lhe a entrada na sala, retribuiu o cumprimento e ficou a observar o andar elegante, as pernas bem feitas e o rabo vigoroso. Um mulherão!

Escolheu a mesa livre junto à janela, de frente para o rosto de olhos grandes e lábios vermelhos, emoldurado por longos cabelos desalinhados. Fitou-a profundamente, numa manifestação de desejo e tesão incontida que a perturbou e a fez mexer no cabelo daquela forma elegante, como fazia sempre que ficava tensa.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

20.



No quarto esperava-nos uma garrafa de Champagne já no frappé. Apesar de duvidar que eu aceitasse tinha tudo preparado…

Abriu a garrafa, serviu as flutes e fez menção de o tomar na varanda… o brilho da Lua no mar negro estava apelativo, mas eu estava ali para lhe provar que não me conhecia… lembrei-me do seu sms depois do banho
“Bem me podia ter convidado…”

Fui à casa de banho e pus o jacuzzi a encher, regressei ao quarto e olhei-o nos olhos em ar de desafio. O seu sorriso e o brilho dos olhos negros foram significativos, tinha percebido a mensagem.

Agarrou-me pela nuca e beijou-me intensamente, as suas mãos percorriam-me as costas e a nuca causando-me arrepios, os mesmos arrepios que sentira desde o primeiro instante que o vira.

Permanecemos agarrados num beijo até a água quase encher o jacuzzi. Quando nos soltámos, acendeu velas de aroma doce a baunilha e canela pela casa de banho. Ficou a ver-me despir, apreciando cada movimento, podia ver-lhe as reacções através da parede de espelho, só a fraca luminosidade ocultava o quanto me estava a fazer corar.

Soltou um “Hum” de apreço, e os seus olhos pareciam faiscar de tesão.

Mergulhámos no banho quente e perfumado. Encostado a mim, de corpo inteiro, podia sentir a sua pele, o seu calor, as suas mãos que me percorriam o corpo todo, tacteando, sentindo, sondando cada pedaço do meu corpo, como se quisesse memorizá-lo…

Os seus beijos deixavam-me ainda mais quente e excitada, os arrepios tinham-se agora transferido para o interior do meu ventre, num crescendo de excitação, que os meus mamilos erectos e rígidos não conseguiam ocultar. Beijou-os, acariciando-os, enquanto gemia suavemente de agrado.

Embrulhou-me num roupão e transportou-me ao colo até à cama. Começou a beijar-me um pé, dedo a dedo, lambendo-os, chupando cada um deles, beijando a palma dos pé, subiu pela perna até ao joelho, beijando e lambendo cada centímetro de pele, para terminar na covinha do joelho, num perfeito choque eléctrico.

Recomeçou no outro pé, repetindo cada beijo, cada toque, numa tortura calculada e prazeirosa, subindo depois ao interior das coxas, beijando-as e lambendo-as, enquanto as suas mãos me percorriam os quadris e a barriga.

Despejou um pouco de Champagne sobre o meu peito, escorrendo até ao umbigo, para depois o sorver directamente da pele. O efeito dos seus lábios, da sua língua, do toque frio do Champagne e das bolhinhas na pele, estavam a enlouquecer-me completamente!

O fogo de tesão que me percorria era superior a qualquer encenação imaginável. Perdi a noção do espaço e do tempo, lembro-me de ver os primeiros alvores da madrugada sobre o mar, não queria acreditar que o dia já estava a nascer…

Acordei já o sol ia alto, a cama estava desfeita mas vazia…

19.


Pelos vistos a minha ausência teve os seus efeitos, mais que não seja o de a levar a fazer algo para recuperar o controle da situação. "Ela" era daquelas pessoas que gosta de ter o comando na mão, mas não suporta ficar "por baixo". A partir daí...

A partir daí foi assinar a conta, tentando disfarçar o tremor das mãos, dirigir-me para o elevador sem perder a compostura e portar-me bem durante a curta viagem. Se por um lado me parecia um pouco "desafiante", o ar quase irritado ajudava a esconder algo mais: Tesão. Excitava-a a perspectiva de subir para um quarto de hotel com um estranho, mais ainda tendo sido dela a "iniciativa". Decidi ver até onde ia.


Chegamos ao quarto. O "Veuve Clicquot Ponsardin" já estava a "suar" no balde, como que por milagre. Deitou-lhe um olhar desconfiado e ao mesmo tempo desdenhoso. Estávamos num combate pela posse do "comando" que não era brincadeira, ou melhor: Ela comandava, eu deixava-a ir pelo caminho já preparado por mim. Isso irritava-a ainda mais. Esta mulher era especial e eu queria ver até que ponto era capaz de me surpreender. Limitei-me a abrir o "champagne" sem dizer muito, esboçando apenas um sorriso. Servi-o, um suave toque de copos, olhos nos olhos...


- Sei de um sítio onde o champagne sabe muito bem - disse eu, fazendo menção de me encaminhar para a varanda.


- Sei de outro onde sabe muito melhor...

Encaminhou-se para a casa-de-banho e começou a encher o jacuzzi. Voltou para o quarto, olhou-me nos olhos com uns olhos de criança, num sorriso sacana de mulher madura que sabe muito bem o que quer. Beijámo-nos. Beijámo-nos como se sempre o tivéssemos feito, como se os lábios estivessem habituados a encaixar, como se tudo estivesse habituado a interagir. O toque, a pele, o cheiro, tudo me parecia familiar. O Olhar... Um misto de "queres brincar comigo?" com "fode-me", foi algo que me prendeu imediatamente.


Desliguei o jacuzzi. Estava a introduzir demasiada confusão naquele ambiente. Acendi as velas da casa de banho. Enquanto se despia parecia lutar para aparentar uma segurança que estava longe de ter. Deixei-a entrar na enorme banheira e juntei-me a ela.


Apenas o reflexo das velas no espelhado da água permitia o contacto visual. Sentou-se no meio das minhas pernas, encaixando-se em mim, permitindo-me percorrê-la com as mãos. Pareceu relaxar e começar realmente a deixar-se ir. Já não era desafio mas sim prazer, tesão de sentir as mãos de um desconhecido a explorar o seu corpo.


As minhas recordações daquela noite foram interrompidas pela chegada da nossa "amiga" do dia anterior:


- Ainda quer companhia, ou hoje já desistiu?


- De modo nenhum, será um prazer. Porque haveria de desistir?


- Porque me convidou ontem? Posso saber?


- Não quer sentar-se primeiro? Assim parece que veio, não pela companhia, mas para inquirir. Permita-me... O que a levou a pensar que hoje desistiria do convite?


- Para começar, não entendi a motivação do convite...


- Já nos tínhamos visto no Moinho, depois aqui, ainda por cima com quem... Achei giro a coincidência e tive vontade de a conhecer. Não foi nada racional. Apenas um impulso. Foi má ideia?


Já tinha reparado na sua forma elegante de mexer no cabelo quando ficava tensa. Ficava-lhe bem. Fazia sobressair os olhos...

quarta-feira, 2 de julho de 2008

18.


No hotel tomou um duche e trocou as jeans confortáveis pelo vestido preto decotado e justo, mas igualmente confortável. Não era uma bebida entornada que lhe ía estragar o fim de semana, nem tão pouco uns penetrantes olhos negros.
Desceu ao bar, com um leve sorriso estampado no rosto.

Repentinamente o sorriso desvaneceu-se. Não queria acreditar. Não podia acreditar!

- Que fazes aqui?? Seguiste-me?

Só mais tarde na tranquilidade do leito percebeu o ar incrédulo e surpreso dele. Conhecia-o bem. Por baixo daquela aparência extremamente elegante do seu metro e noventa musculado, de feições correctas e tez morena, sabia que estava um ser incapaz de mentira. Podia ser bruto, por vezes rude de palavras, demasiado frontal, sem evitar ferir, mas nunca lhe apanhara uma mentira.

- Estás louca? Acreditas mesmo que eu te seguiria?

- Sei lá...
respondeu, sem muita convicção.

- Pois deverias saber!! Vou pedir que me sirvam o jantar no quarto... disse-lhe, enquanto puxava para trás a madeixa de cabelo e deixava a descoberto os olhos grandes, brilhantes, luminosos, de um negro inconfundível.

Ficou parada junto ao balcão, a vê-lo sair. Era realmente um homem atraente. Atraía-a!...

Atravessou a sala e acabou por jantar sózinha numa mesa recatada do restaurante, embrenhada em pensamentos.

O Chivas acalmou-lhe o arrepio provocado pela aragem suave. O céu mantinha-se estrelado, mas à noite arrefecia sempre. Fixou o olhar no firmamento onde o mar e o céu se beijam e deixou-se embalar pela brisa fresca e o calor da bebida.

- Uma indiscrição em troca de uma bebida? Boa noite.

Não! Ali estava o parvalhão do Moinho, de copo esticado. “Mas o que é que este gajo quer?” Teve vontade de lhe atirar “Você não perde tempo!”

Já deitada, recordou a conversa, só então se apercebeu do toque inseguro da voz dele e do arrepio que aqueles olhos negros penetrantes lhe provocaram.

Enquanto o via afastar-se ainda sussurou “Gostava de apreciar a tua cara de parvo se eu aceitasse o convite”

Deixou para o dia seguinte, quando o viu sozinho a tomar o pequeno almoço.

“Ainda quer companhia? Ou hoje já desistiu?”

terça-feira, 1 de julho de 2008

17.


Porque será que os homens nos tomam todas por loiras…?

Fez-me esperar à porta do bar dizendo que estava atrasado, quando na realidade estava algures nas redondezas, provavelmente a observar-me… será que achou que não percebi…? Por coincidência até estava encostada no carro dele, mas nem se esforçou a explicar-se.

Mora longe e marca um jantar num hotel no Guincho… Agora diz-me que vai telefonar ao carro… pois… se não o tivesse visto pelo espelho a dirigir-se ao bar, pedir uma bebida e sair para a varanda… devo ter mesmo ar de loirinha!

Deve ser por isso que os homens gostam de mulheres burras, não vêem nada, não ouvem nada, não dão por nada…

O pianista toca agora com destreza o Summer Night, instintivamente olho para ele, que me retribui com um aceno de cabeça à laia de cumprimento… curiosamente a cara não me é estranha, mas como frequento vários bares de hotel deve ter-se já cruzado comigo noutro sítio.

Faço sinal ao barman para me trazer mais um whisky e para servir um ao pianista. Quando me entregou o copo fez um sorriso entre o trocista e o divertido… deves saber mais da minha companhia, do que eu alguma vez saberei…

X regressou à mesa, com o ar mais calmo do mundo, passados uns 15 minutos.

- Pensei que me tinha abandonado…

Desculpou-se com uma conhecida que encontrou, mas os seus olhos vinham agora mais expressivos, mais gulosos… seria pela conhecida, ou por estar mais descansado de não ser denunciado por alguma amiga da sua cada-vez-menos-mulher?

- Ao jantar tornou a responder-me a uma pergunta com outra, é um hábito seu?

- Pensei que a minha resposta estava implícita. Perguntou-me se eu estava à altura das minhas provocações. Eu perguntei-lhe se estava à altura das suas. Foi você quem não respondeu à minha pergunta.

Desta vez os seus olhos foram bem explícitos. Não abriu a boca, nem precisava ter aberto… não estivéssemos num sítio tão acompanhado e acho que se tinha atirado à minha boca ali mesmo!

Estendeu a mão e passou-me o cartão do quarto.

Olhei o cartão e os seus olhos negros, de novo, o olhar de tesão contrastava com o sorriso sacana de quem está à espera que eu me esquive. Adoro quando acham que já me conhecem…

- Vamos subir, ou está à espera de mais alguém… disse, enquanto me levantava e lhe virava as costas

- Cabra… ouvi-o sussurrar

16.


Há alturas em que os acontecimentos se precipitam e mais vale não fazer nada.


No breve espaço de tempo que levámos a transpor o lobby comecei com o desagradável constrangimento de ter dado de caras com um ex-colega de quem nem sequer gosto, continuei com a agradável surpresa de ver a nossa "amiga" da tarde, para acabar na completa surpresa de, acto contínuo, os ver a discutir. Aproveitei para ir direitinho para o restaurante e evitar conversas.


Já durante o jantar, pelo canto do olho, apercebi-me dele a sair, visivelmente irritado, e ela a entrar no restaurante, acabando por jantar sozinha.


Qual seria a relação daquele tipo com ela? Na verdade não parecia nada pacífica. No entanto, ainda bem que assim foi porque, pelo menos, não tive que fazer conversa de circunstância com um tipo que era bem capaz de perguntar pela minha mulher. A verdade é que ele foi embora "pior que estragado" e ela ficou a jantar sozinha. Iria passar a noite?


Um sorriso mental invadiu-me. Será que a minha amiga tinha somado dois e dois e chegado à conclusão que eu morava demasiado longe para ir dormir a casa? Teria ligado isso com o facto de estarmos a jantar num hotel? Se o fez não o denunciou.


Eu gosto de uma provocação mas não perco a compostura. Há alturas em que não se pode ser consequente nas respostas e aí o melhor é ficar caladinho. No entanto, aquela resposta ficou a deambular na minha cabeça, a seu tempo se veria quem estava à altura das suas provocações. Para já, deleitava-me a alimentar o ambiente "denso" que se instalou. Por vezes a tensão alimenta a...


Já no bar, a conversa fluía descontraída, embalada pelo "Balvenie Portwood" e pelo som do piano. A ilustre desconhecida tinha estado algum tempo no balcão do bar, de copo na mão e parecia ter ido até à varanda. Se nos reconheceu, não o demonstrou. Pareceu-me fechada em si própria.


Eu estava um pouco apreensivo com o facto de ter sido visto por aqui por aquele tipo, alguém que não morria de amores por mim. Tinha como certo o lugar que ocupo neste momento na empresa e nunca o "digeriu" convenientemente. O tipo de pessoa que me prejudicaria se pudesse. Decidi saber mais.


- Importa-se que a abandone por um momento?


- Pode saber-se onde vai ou é segredo?


- Entre outras coisas, preciso de ir ao carro fazer um telefonema. Deixei lá o telefone para não sermos incomodados. Não demoro.


Passei pelo bar, perguntei ao barman, já conhecido, o que aquela senhora tinha estado a beber. Ele, com um sorriso cúmplice mas sem qualquer comentário, serviu-me uma dose que eu levei. Estava de facto na varanda como eu antecipara.


- Uma indiscrição em troca de uma bebida? Boa noite.


- Quem disse que eu queria uma bebida?


- Ninguém, mas aproveito para a compensar da que perdeu hoje à tarde, em parte por minha culpa.


- Presunção e água benta...


- Cada um toma a que quer, eu sei. No entanto, feliz ou infelizmente, conheço a pessoa que estava a falar consigo e gostava de saber se ele me viu.


- O meu marido? Pelos visto andava demasiado ocupado a perseguir-me. Não disse nada a respeito, se isso o conforta.


- Posso cometer a indiscrição?


- Quem disse que eu aceitava a bebida?


- O que se passou?


- Combinámos um fim-de-semana para descansarmos um do outro e pelos vistos viemos parar ao mesmo sítio. Pensei que me tivesse seguido mas já não tenho a certeza. De qualquer modo foi-se embora.


- Quer fazer-nos companhia?


- Ainda faltam acontecer algumas coisas entre vós para a companhia de alguém vos ser agradável.


- O que quer dizer?


- Que estão na fase da exploração. Aquela em que, quanto mais gente pior.


- Gosto de mulheres perspicazes. De qualquer forma, sinta-se à vontade para se juntar a nós se lhe apetecer. Quando for para a mesa vou comentar que encontrei uma pessoa conhecida.


Com a nítida sensação de que não o faria, passei pela recepção e voltei à mesa.


- Pensava que me tinha abandonado...


- Peço desculpa. Encontrei uma pessoa conhecida. Imagine que esteve a jantar na mesma sala que nós e não reparei nela.


- Alguém especial?


- A mulher de um ex-colega meu. Só quis que percebesse que não a tinha ignorado propositadamente mas apenas porque estava focado noutra pessoa.


- E estava?


- Ao jantar tornou a responder-me a uma pergunta com outra, é um hábito seu ?


- Pensei que a minha resposta estava implícita. Perguntou-me se eu estava à altura das minhas provocações. Eu perguntei-lhe se estava à altura das suas. Foi você quem não respondeu à minha pergunta.


Olhei-a nos olhos, enquanto passava para a sua mão o cartão do quarto, reservado no dia anterior.