quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A.9



Sentiu-se algo constrangida, afinal tratava-se de um estranho com quem apenas se cruzara na véspera… não se sentia à-vontade para ir para a praia com ele, e aquela pergunta, feita daquela maneira, parecia-lhe um convite à sua companhia…

- Estava a pensar ir até à praia, mas francamente ainda não venci a preguiça…

- Posso fazer-lhe um convite…?

Anuiu com a cabeça, ainda que se debatesse interiormente para se esquivar.

- Quer vir dar um passeio de barco na ria? Depois desembarcamos numa praia e damos um mergulho…

- E onde se arranja um barco? Sei que aqui alugam alguns.

- Descanse, eu trato disso. Vou só fazer um telefonema.

Ficou a tomar o café e a vê-lo de costas a falar ao telemóvel. Parecia ganhar estatura, ao perder o ar cansado que lhe fazia pender os ombros na véspera.

Agradou-lhe o som das gargalhadas que o ouviu dar, soavam a francas e bem dispostas.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A.8


Fechou a porta e sentiu o cansaço invadi-la, estendeu-se em cima da cama, ainda vestida… passavam-lhe pela cabeça as memórias dos últimos dias em Lisboa, da confusão que se tornara a sua vida e a sua relação, que começara tão de mansinho e que se tornara já uma fonte de inseguranças e de mal-estar… adormeceu com um sorriso, ao recordar o prazer da viagem e o agradável serão com aquele desconhecido.

Abriu os olhos para um novo dia, o primeiro dia de férias, as malas estavam espalhadas pelo quarto e a roupa da véspera no corpo… riu-se de si mesma: São férias! disse em voz alta, para que a sensação se lhe entranhasse… às vezes fazia-o, falar em voz alta consigo mesma, sobretudo quando tinha de se convencer a si mesma de qualquer coisa.

Tomou um duche e foi à procura da esplanadinha junto à piscina, para tomar o pequeno-almoço. Comeu e deixou-se ficar a desfolhar o livro que levara para companhia, enquanto tomava o café e fumava o seu cigarro, saboreando o tempo que corria, morno, e o cheiro das azáleas em flor.

- Permite-me que tome um café consigo… era uma voz suave, quase sussurrada, perto do seu ouvido. Levantou os olhos do livro e viu-o, com um ar desportivo, descontraído, bem diferente o ar executivo da véspera… a barba começava a despontar, dando-lhe um ar negligé e mais leve…

- Claro! Sente-se à vontade … respondeu-lhe com agrado na voz.

- A noite foi reparadora?

- Adormeci vestida, acredita nisto…?

- Acredito, estava visivelmente cansada. E agora, piscina ou praia…?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A.7



A brisa de fim de dia trazia-lhe o aroma do mar e da ria, e os sons das vozes transportavam-na para longe… sentia-se absorta, ausente, caminhava calmamente, sem maior motivação que a fome que se começava a fazer sentir…

Os passos levaram-na a sair do aldeamento em direcção à vila, talvez aquele restaurante de que tanto gostava estivesse aberto…

O movimento nas ruas destoava dos seus sentimentos, no meio de tanta gente sentia-se a caminhar sozinha, mas, ainda assim, respirava fundo a agitação para ver se se animava.

Distraída com os seus pensamentos, ia chocando com um fulano, à entrada do restaurante, que gentilmente lhe cedeu a passagem.

- Mesa para dois? Ainda tenho uma.

- Não estamos juntos...

- Vou pedir-lhe então que aguarde um pouco. Sexta-Feira à noite, sem marcação...


Decidiu convidá-lo a partilhar a mesa, não lhe parecia correcto que ficasse à espera depois de ter sido tão gentil.
Sentaram-se e foram vendo a lista.

- Aceita tomar um vinho comigo, a acompanhar a refeição?

- Sim… nem vou conduzir mais hoje…

Fizeram o pedido e ficaram em silêncio, frente a frente, sem muito a fazer… já se arrependia de ter feito a sugestão, mas seria falta de educação não o fazer… aproveitava para o ir observando discretamente, tinha um ar calmo, mas algo conturbado, um não-sei-quê de atribulado, e as mentes atribuladas sempre a atraíram, pensava…

- É sempre tão observadora e silenciosa…?

- Desculpe… nem sempre… deve ser ainda a ressaca da semana de trabalho e da viagem. Está de férias…?

- Apenas a aproveitar um fim-de-semana em paz…

- Este é dos melhores locais que conheço para isso, por isso cá estou, ainda que por mais uns dias. Acho que não aguentaria nem mais um dia na confusão da cidade… estou para aqui a maçá-lo com a minha tagarelice.

Deu uma risadinha traquina, que lhe era muito própria.

- É a descompressão do stress. Eu próprio ainda estou a descomprimir, nada melhor que esta brisa do mar, um bom jantar e um bom vinho, vai ver que se sente outra no fim!

A refeição estava excelente, como aliás era habitual naquele pequeno restaurante. Quando terminaram convidou-a para tomar um digestivo.

- Se não me levar a mal, convido-o a tomá-lo no bar da piscina do aldeamento onde estou. É mesmo ao cimo da rua, e com este tempo é muito agradável ficar na esplanada… já estou doida por um cigarro!

Sentaram-se numa mesa perto da água, mais afastada dos ruidosos ingleses que viam um jogo de futebol no interior do bar, a conversar sobre a beleza daquele local e sobre quanto gostavam de “fugir” para aquela zona.

Quando o cansaço se começou a fazer notar, ele ofereceu-se para a acompanhar até à porta do apartamento.

- Obrigada pela companhia, foi muito agradável…

- Igualmente! Tenha uma boa noite.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A.6

- ...Qual é a "tanga" desta vez?


- Nenhuma. Vou apanhar ar.


- Faço uma ideia com quem...


- Sabes mais do que eu. Queres elucidar-me?


- Não me faças de parva !...


O diálogozinho do costume ainda lhe martelava na cabeça. Tinha feito o caminho em piloto automático. Estava quase a chegar. A zona para onde ia trazia-lhe à memória instantâneos de uma adolescência feliz, quando alternava manhãs de pesca, tardes na praia e noites no aldeamento da zona onde a "pesca" era outra. Faziam um belo quarteto de engatatões de calções.


Apesar do insucesso quase constante em ambos os tipos de pesca, eram momentos que recordava com nostalgia. dos outros três só sabia de um. Os manos emigraram para os estados unidos.


Chegou em cima da hora do jantar, arrumou o carro, desligou o telemóvel e percorreu os poucos metros até ao restaurante. O ar quente a bater-lhe na cara trouxe-o para outra realidade. Deixara o casamento em Lisboa. Por dois dias estava por sua conta e não queria perder um minuto. O dia chegaria em que isso também se resolveria. Por agora só queria um jantar sempre bom... E paz.


Absorto nos seus pensamentos quase chocou com uma mulher que ia a entrar. Automáticamente cedeu-lhe a passagem. Nunca foi o protótipo do cavalheiro, achava isso uma forma de subalternisar as mulheres, mas a educação falou mais alto.


Entraram quase ao mesmo tempo.


- Mesa para dois? Ainda tenho uma.


- Não estamos juntos...


- Vou pedir-lhe então que aguarde um pouco. Sexta-Feira à noite, sem marcação...


- Qualquer canto serve. Estou sózinho.


- Eu também. Como foi simpático ao ceder a passagem não me importo de partilhar a mesa.


- Seria um prazer, mas não quero ser inconveniente.


- A sério. Se não o tivesse feito tinha entrado à minha frente...


- Agradeço então...


Era um olhar algo basso, aquele que fitava pela primeira vez. Notava-se um misto de segurança e sacanice muito lá no fundo, por debaixo de uma indiferença que lhe pareceu sincera.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A.5



Dormiu mal e de forma entre-cortada. Levantou-se antes mesmo do despertador tocar, sentia-se irrequieta, irritadiça… parecia que ia entrar em erupção a qualquer momento.

Tomou um duche, comeu qualquer coisa, vestiu um vestido leve e prático para a viagem e meteu as malas no carro.

Tomou o seu café matinal na mesa do costume, estranhou não o ver por ali, como era hábito.

Passou a maior parte do dia a passar pastas e informações, sobre os trabalhos que tinha em curso, a uma colega. Almoçou com um grupo de colegas e a tarde voou entre arrumar assuntos e uns telefonemas. A porta do gabinete dele esteve fechada o dia todo, o que indiciava que ele estaria fora.

Ás 5 e tal despediu-se dos colegas, meteu-se no carro e rumou a sul. A estrada estava relativamente pouco movimentada àquela hora. Ligou o leitor de cd’s e escolheu a sua música favorita… durante kilómetros deixou-se embalar na música e na paisagem, nos reflexos dos raios de sol… sentia que a paz se ia instalando à medida que os kilómetros iam passando, a respiração ia acalmando e a expressão facial ficando mais suave.

Quando finalmente passou a portagem e rumou ao Sotavento, já a suave brisa de fim de dia a embalava pela janela aberta, trazendo-lhe o apelo do mar.

Retirou as malas do carro com os últimos raios de sol a avermelhar o céu. Cansada sentou-se no terraço a apreciar o espectáculo de cor que o céu lhe proporcionava, e a pensar onde iria jantar…