
Não conseguia muito bem entender como tinha chegado àquele nível de envolvimento. Considerava-se uma mente livre e descomplexada, ainda que algo tímida, gostava de manter as relações no seu devido lugar, sem que interferissem com o resto da sua vida.
Quando as coisas se estavam a intensificar mais, fazia questão de esclarecer que não procurava alguém de quem depender, sempre gostara de ser independente…
Com ele tudo acontecera de forma algo estranha… talvez pelo facto de nem um nem outro estarem à procura de um amor, mas apenas a partilharem-se, sem segundas intenções.
Saíra há pouco de uma relação atribulada, e ele sentia-se insatisfeito com a vida e com o casamento. Nem um, nem outro, estavam com o coração disponível, nem dispostos a baixar as “guardas”… a amizade surgiu fácil e a partilha dos sentimentos e das frustrações só ajudou a cimentá-la.
Revelara-se mais que um D. Juan, um homem com um coração bonito e carente. Alguém que nunca conhecera o verdadeiro amor, e por isso o procurava em cada mulher, sem saber sequer o que procurava…
Depois a química fora mais forte, e a atracção levou-os a partilhar os corpos, a descobrir o prazer um do outro, a desejar sentir a pele na pele, a boca na boca, no corpo…
Encontraram-se num motel, soltando a loucura dos corpos, do desejo…
Saíra de lá a pensar que podia ter perdido uma amizade interessante, apenas por ter deixado extravasar o desejo; a remoer por ter ultrapassado a barreira, que sempre se impunha, de não misturar trabalho e prazer…
No dia seguinte, a reacção dele fora de tal forma boa, que a fizera esquecer por completo os princípios e os preconceitos… passaram a sair e a estar juntos para almoçar quase todos os dias, às vezes aproveitavam para ficar a “namorar”, outras “davam uma fugida” para uma cama…
Rapidamente o seu coração se foi rendendo, entregando, baixando todas as “guardas” e permitindo que o seu amor o penetrasse…
Agora era altura de ir de férias e não sabia como iria aguentar a separação. Queria muito pedir-lhe que viesse com ela, mas nunca o faria… sabia que ele tinha a mulher, as crianças, ainda que insatisfeito com a vida que tinha, era a que ele tinha escolhido…
Foi pondo, mecanicamente, na mala as roupas e os acessórios de que precisaria para as férias. Sabia que não iriam ser grande coisa, no estado de espírito em que se encontrava, mas o espaço e o tempo para reflectir iriam fazer-lhe bem…


























