segunda-feira, 30 de junho de 2008

15.


Atravessámos o lobby do hotel em direcção ao bar e ao restaurante, sentia o seu braço quente nas minhas costas e a mão direita que me agarrava a cintura, encaixando-me perfeitamente…

Escolhemos uma mesa aconchegada junto à enorme vidraça de frente para o mar, sentámo-nos, frente a frente, perscrutando-nos mutuamente.

Não sabia o que me atraía mais nele, se o olhar inquiridor, de quem procura ver para lá do exterior, se a voz ligeiramente rouca e sussurrante, só sabia que aquele desconhecido tinha mexido comigo.

- Preciso de ir ao WC…


- O WC fica junto ao bar. Não quer pedir a entrada primeiro?


- Confio no seu bom gosto, desde que não seja peixe cru ou cebolas…

Levantei-me e atravessei a sala em direcção ao bar. Sentia os seus olhos que me seguiam, observando-me sempre, tal como da primeira vez. Quando regressei o vinho já estava servido e a refeição pedida.

- Agora já não tem escolha. Disse com um tom meio sarcástico


- Escolha? Tenho sempre… respondi-lhe, enquanto cruzava a perna roçando-lhe intencionalmente a canela.

O brilho dos seus olhos negros teve um não-sei-quê de selvagem, de tesão pura. Senti-o arrepiar-se como se tivesse sido percorrido por uma corrente eléctrica.

- Você está à altura das suas provocações?

A gargalhada saiu-me forte, incontida e instintiva. Não era a primeira vez que me faziam aquela pergunta, mas já não a ouvia há uns anos. E a resposta só podia ser a mesma que na altura dera também…

- E você… está à altura das suas?

O jantar decorreu num quase silêncio, acompanhado de uns acordes de piano que vinham do bar, a sala estava quase vazia, com excepção de um casal de meia idade com ar de estrangeiros, de dois fulanos de fato e gravata e de uma mulher que jantava sozinha numa mesa junto a uma coluna. Lá fora, a Lua enchia de reflexos de prata o mar do Guincho.

- Tomamos o café e o whisky no bar? A música está bem agradável…

14.


A manhã começou mal, com a falta de água que o fez chegar atrasado à reunião. Aquelas malditas reuniões enlouqueciam-no, especialmente quando a senhora engenheira resolvia estar presente. A mulher quase o fazia perder a compostura, nem tanto pela tesão provocada pela paisagem inebriante dos opulentos seios, mas pela incapacidade de proferir duas frases seguidas com nexo.

A tarde foi pior. Uma tresloucada, como o são todas as mulheres ao volante, enfiou-se na traseira do carro. Completamente histérica, ou não fosse mulher, saiu do veículo aos berros, lavada em lágrimas. Num laivo de machismo gritou-lhe “as mulheres deviam ser proibidas de conduzir!”

Agora, só queria esquecer o chorrilho de insultos de que foi alvo e as horas perdidas na 2ª circular. Rumou ao Guincho com o Sol a bater-lhe de frente. Estacionou e sentiu um arrepio quando a aragem fresca lhe envolveu a camisa transpirada. Entrou no hotel, pediu um quarto com vista para o mar...

O banho aliviara-lhe o stress do dia. Enquanto abotoava o cinto, apreciou da varanda as cores avermelhadas do céu em fim de tarde. “Onde estará ela?” pensou, sentindo alguma melancolia que logo procurou desviar. As coisas não andavam a correr bem ultimamente e quando ela lhe propôs passarem o fim de semana separados, concordou de imediato.

Olhou o relógio. Ainda tinha tempo para uma bebida no bar antes do jantar. Talvez estivesse por lá alguma mulher bonita. Não que estivesse ali à procura de mulher, por hoje chegava de mulheres!

A música de fundo e a decoração requintada tornavam o ambiente austero mas acolhedor. Aproximou-se do balcão “um Logan, por favor...” Um casal cinquentão ao fundo, dois homens aparentemente de negócios, nada de mulheres... a não ser a que acabava de entrar seguida do...
“Que faz o gajo aqui acompanhado daquele mulherão??...”

13.


Há algo em todos nós, possivelmente reminiscência do tempo em que, como seres humanos, tínhamos de lutar pela vida na verdadeira acepção da palavra, que nos diz quando estamos a ser observados.


Senti-o naquele momento, uma fracção de segundo antes de me cruzar com o olhar dela, um misto de "Estes gajos não tinham mais sítio nenhum para onde vir fazer esta merda..." com "Já agora deixa-me lá gozar a cena que até é capaz de ser giro". A verdade é que se acomodava confortavelmente para assistir, não se preocupando sequer em disfarçar. Os seus olhos continuavam pregados em mim. Não sendo propriamente exibicionista, aquela situação estava a acrescentar um ingrediente extra a algo já de si muito bem temperado. Uma espécie de pimenta no chocolate que se derretia na minha boca com o calor daquele beijo.


Concentrei-me no que estava a fazer. Aquela boca era uma tentação irresistível, os olhos meigos, inundados de tesão, pareciam atrair os meus para um abismo de sentidos. As minhas mãos não conseguiam parar de percorrer aquele corpo tão exposto, aquela pele arrepiada pelo meu toque.


Os meus lábios fugiram pela face, largando, aqui e ali, pequenos beijos que iam fazendo subir um pouco mais a ânsia de exploração. A nossa "espectadora", embora tentando manter uma postura descontraída, ajeitava-se na cadeira cruzando e descruzando as pernas e não tirava os olhos de mim. Foi com o olhar fixo no dela que deixei as pontas dos meus dedos deambular pelos ombros, enquanto a minha língua saboreava gulosamente a orelha acabando com um olhar de convite, ao mesmo tempo que chupava languidamente o lóbulo, provocando um arrepio total, qual choque eléctrico que se propagou e fez com que, ao cruzar a perna mais uma vez, a nossa "voyeur" tivesse dado uma pancada na mesa que entornou a bebida.


Com uma irritação contida perante o meu sorriso sacana, levantou-se e dirigiu-se ao bar para pagar, antes de se retirar. Um último olhar de soslaio e desapareceu.


Eu estava demasiado inebriado com o que a vida me proporcionava naquele momento para pensar muito no assunto. Apetecia-me beijar, cheirar, tocar, lamber... aquela mulher madura, tesuda e meiga ao mesmo tempo, de quem não sabia sequer o nome. Encontráramo-nos como se já nos conhecêssemos e não lho cheguei a perguntar. Imaginava como isso estaria a ser interpretado.


Decidimos abandonar aquele sítio com alguma relutância. Caía a noite, estava a arrefecer e eu estava a antecipar um jantar bem agradável no "Hotel do Guincho". A curta viagem foi feita num ambiente de antecipação calma. As mãos procuravam-se languidamente enquanto o carro percorria os poucos quilómetros.


À entrada um breve relance para o bar revela algo do qual eu estou absolutamente convicto:


Por vezes o Universo conspira...

domingo, 29 de junho de 2008

12.


Os olhares tinham-se tornado bem mais descontraídos e expressivos… se por um lado sentia que me observava cada movimento, cada reacção, por outro a forma como “falavam”, aqueles olhos negros, era cada vez mais intensa.

Senti uma mão que me pousou no pescoço, as caras que se aproximavam, quase imperceptivelmente, até os lábios se tocarem… suaves, macios, gentis… mas logo a carícia se transformou em beijo intenso, devorador… as bocas pareciam ter ficado coladas por uma qualquer força de atracção, sentia-me incapaz de me afastar, arrastada por uma onda de prazer, quase a levitar…

Uma mão segurava-me fortemente o pescoço, como se tivesse medo que fugisse, enquanto a outra me acariciava a perna, subindo devagar, deliberadamente, aumentando o arrepio…

Aquela boca, aquela língua, aquele beijo… tudo me parecia familiar, até a intensidade voraz, incontida… como se o mundo fosse acabar e nada mais existisse!

Libertou-me o pescoço, foi descendo a mão direita, acariciando-me os ombros, as costas… e descendo, até quase se encontrar com a esquerda, fechando-me num abraço vigoroso que me apertava contra o seu peito… sentia-lhe o coração bater forte, descompassado, numa aceleração só comparável à força daquele beijo...

Quando por fim descolámos as bocas, à nossa volta a noite quase se tinha instalado já… tinha a pele arrepiada, mas já nem conseguia distinguir bem porquê… sentia-me tremer, mas não conseguia perceber se apenas por dentro, ou se no exterior também.

Olhou-me fixamente nos olhos, tinha agora uma expressão totalmente diferente, onde passavam laivos de satisfação, de carinho, à mistura com alguma confusão. Sem falar sequer, levantamo-nos, pôs-me novamente o seu casaco quentinho pelos ombros e abraçou-me fortemente de encontro ao peito.

- Vamos jantar, a noite está fresca e está a ficar gelada.

Não consegui responder, estava de tal forma anestesiada que só dei por chegarmos ao carro, encostei-me na porta, meia a cambalear, quando me soltou debaixo do seu braço… agarrou-me suavemente no queixo e levantou-o, para me fixar os olhos de novo, pousou um beijo suave nos meus lábios e abriu a porta, enquanto me sussurrava no ouvido:

- Vamos, senão não resisto…

Descíamos agora a minha estrada favorita, já com a lua a espalhar sobre o Guincho os seus raios prateados… a noite estava divina!

sábado, 28 de junho de 2008

11.


Sentara-se numa mesa junto ao muro. Poisou a mala e sobre a mesa a bebida que trouxera do balcão. Sorveu um golo do líquido avermelhado a saber a groselha com travo de rum.

Deixou-se ficar a olhar o mar azul, numa tonalidade característica de fim de dia, que a obrigava a vaguear em recordações.

Uma leve brisa provocou-lhe um arrepio, precisamente no momento em que um casal se aproximava.

Que chatice! Isto estava tão sossegado... pensou

Acabou por notar que passara despercebida. Uma árvore simpática encobria-a ou estariam ambos demasiado embrenhados no seu enamoramento.

Colocou o casaco sobre os ombros, aconchegou-se melhor na cadeira e preparava-se para retomar a vaga de pensamentos interrompida, quando novo arrepio a assolou. Os lábios de ambos acabavam de se roçar, até se transformarem num beijo sofrego e demorado.

Susteve a respiração, num acto quase caricato de quem não quer ser apanhada. Aninhou-se ainda mais na cadeira, por trás da cumplicidade da árvore, mas não desviou o olhar.

A mão esquerda dele percorria-lhe agora a perna, sobre o tecido fino do vestido. Quase conseguia sentir o calor da mão, a sensualidade dos lábios, a humidade da língua...

Por um instante cruzou-se com os negros olhos. Arrepiada, do frio ou da excitação, vestiu o casaco, sem deixar de o fixar
...

sexta-feira, 27 de junho de 2008

10.


Às vezes o Universo conspira.


Tinha escolhido um encontro num sítio em Lisboa para não a afugentar. No entanto ia com o firme propósito de fugir dali. As circunstâncias tinham-nos posto num dos sítios mais agradáveis que conheço, na altura ideal do dia, com o clima ideal, uma brisa morna e agradável, e, cereja no topo do bolo, dia e hora de jogo da selecção nacional num sitio sem televisão. Resultado: Apenas um casalinho de namorados num recanto e nada mais. Entrámos para pedir, no caso um gin tónico e uma caipirinha, dizendo que íamos lá para fora.


Escolhemos um autêntico camarote com vista para o mar. A menina veio com as bebidas:


- Os senhores vão-me desculpar, eu vim agora aqui trazer as bebidas mas não posso voltar, uma vez que estando cá sozinha, não me posso afastar tanto do balcão...


- Deixe lá. Se for preciso mais alguma coisa, vamos buscar. Não tem problema algum.


Tive vontade de a beijar...


- Acho que não ficámos a perder com a troca de sítio. Que lhe parece?


- Absolutamente. Já fiquei a conhecer mais um sítio.


- Venho eu, de fora, mostrar sítios aos amigos de Lisboa.


- Não é de cá? Não se nota nada.


- Na verdade sou, mas neste momento vivo mais para norte. Já reparou que estamos destinados a partilhar varandas sobre o mar?


- Há coisas muito piores...


- Pode ser que desta vez não me despache...


Sorriu de uma forma que me pareceu um bocadinho sacana, ao mesmo tempo corava ligeiramente.


- Sentiu-se despachado? Acho que não fez nada para que eu o despachasse.


- Ao telefone, no Hotel, despachou-me completamente.


- Queria dizer-me ao telefone o que não me tinha dito na cara?


- O que queria que eu tivesse dito?


Respondeu-me apenas com o olhar. A minha mão, que andava despreocupada pelas costas da sua cadeira, pousou no seu pescoço e beijámo-nos. Um beijo que começou morno e terno mas que, quase instantaneamente, aqueceu e se tornou num "combate" de línguas.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

9.



- Não é um pouco longe? Eu nem sequer trouxe carro…

- Não se esqueça que prometeu sair da cidade, vai ver que até lhe sabe bem o passeio!

Disse, enquanto passava o braço, roçando-o suavemente nas minhas costas, para abrir a porta do carro… o arrepio que me provocou era inexplicável, raios!... Só então percebi que me tinha encostado mesmo no carro dele, que coisa!

Pelo caminho os meus olhos vagueavam perdidos na paisagem, enquanto do pensamento não me saía o arrepio da pele…

- É sempre assim tão silenciosa? Prefere que ponha um pouco de música?


- Desculpe, estava perdida nos meus pensamentos, e a ser indelicada… não estou mesmo grande companhia!

- Vai continuar a desculpar-se a noite toda, ou vai deixar-me tentar animá-la? Tem um sorriso tão especial, não entendo porque o esconde tanto.

- Desc… hihihi, já me ia a sair outra vez… lido com pessoas o tempo todo e tenho de lhes sorrir, quando descontraio o sorriso desaparece.

- Isso não é verdade… já a vi sorrir sozinha…


Subíamos a serra, com o mar e o Guincho à nossa esquerda.

- Adoro esta estrada! Deve ser a mais bonita estrada portuguesa, senão a mais bela da Europa.

- Vale a pena, só para lhe devolver o sorriso percorria-a vezes sem conta!


Levantou a mão em direcção ao meu rosto e afastou-me uma madeixa de cabelo que lhe encobria o campo de visão. Senti a suavidade e a avidez com que o fez, o à-vontade com que me tocou, pele na pele, como quem beija com a mão… de novo o arrepio, de novo…

Entrámos por uma estrada de terra batida e parámos junto de um moinho, de frente para o mar. A vista era deslumbrante! O Guincho resplandecia de sol, o mar estava de um azul intenso, apetecia ficar ali a olhar, simplesmente.

- Vamos? Disse enquanto me abria a porta.

Passou-me o braço por cima do ombro enquanto me ia indicando o caminho, pelo meio da vegetação, descobrindo-me aos olhos uma esplanada cheia de recantos e praticamente vazia àquela hora, sentámo-nos num deles, de frente para o mar, confortavelmente instalados, com um fim de tarde que começava a ganhar tons rubros.

- Os seus olhos perdem-se sempre no mar!

Olhei-o de frente, os olhos negros pareciam ainda mais profundos, assim fixos em mim...

8.


A sério que quando combinei às seis, estava convencido que o bar estaria aberto.


Estava a pensar numa bebida ao fim da tarde, eventualmente um "snack", marginal ao fim da tarde e jantar no hotel do Guincho. Um programa discreto.


Só depois me apercebi que o ponto de encontro só abria às sete.


O meu primeiro impulso foi o de mandar uma mensagem a avisar da obrigatória mudança de planos. Não durou muito.


À hora marcada lá estava eu num café de onde poderia observar sem ser detectado. Não consegui resistir a observar a sua reacção.


Chegou de táxi, aproximou-se da porta, olhou lá para dentro, consultou o horário afixado na porta e fez uma cara de poucos amigos.


- Peço desculpa pelo atraso. Tive uma reunião que se prolongou, mas já estou a caminho...


Ficou a olhar para o telefone. Parecia um pouco "perdida" mas a tentar manter a pose.


- Ainda está fechado. Quanto tempo?


Não acho boa ideia conduzir e enviar sms, por isso não respondi. Ficou a olhar para o telefone, com alguma impaciência. Ao fim de pouco tempo resolvi aparecer. Não queria arranjar uma inimiga logo à partida.


- Consegue perdoar-me esta confusão?


- Vai ter que me compensar.


O beijo suave, no canto do lábio foi esclarecedor.


- Tinha pensado em jantarmos para os lados do Guincho. Há um sitio maravilhoso para se estar a esta hora, perto do Cabo da Roca. Parece-lhe bem?

7.


Sentia que estava a brincar ao gato e ao rato, com alguém que desconhecia completamente… se por um lado isso me dava um gozo difícil de explicar, por outro levantava algumas defesas naturais… num misto de vontade de provocar e de fugir da situação, um daqueles dilemas nem sempre facilmente ultrapassáveis.

- Apetecia-me que me tivesse convidado para ficar a tomar um copo ao fim do dia no “nosso” terraço…

- Apenas isso?

Estava a entrar na brincadeira, diria mais, estava claramente a virá-la contra mim… a obrigar-me a abrir o meu jogo, a confessar os arrepios inconfessos… sentia-o à vontade a fazê-lo, como quem domina o jogo da sedução.

- Podíamos sempre jantar alguma coisa, conversar um pouco…

- Isso é um convite?

- Ahahaha! Conseguiu pôr-me onde queria…?! Isso soa-me a manipulação. Referia-me a se eu tivesse aí ficado ontem…

- Já percebi que não consigo arrancar-lhe um convite, permite ao menos que a convide eu?

Hesitei por momentos, um jantar é sempre uma coisa pública, os meus níveis de conforto pareceram-me razoavelmente estáveis, respondi-lhe:

- Se for em Lisboa… para esta semana chega de viagens…

- Amanhã à noite? Mas cede a sair da cidade, que ao sábado não há nada de jeito aberto… prometo que não vamos para longe!

- Se promete… mas aviso-o que estou estafada, não serei a melhor das companhias…

- Deixe isso por minha conta :-)

Voltei ao trabalho ainda a pensar na situação, podia estar à procura de uma chatice, mas era só um jantar… que mal tinha? Aquela sensação de arrepio transferira-se agora para o estômago, não me foi fácil almoçar, não sei se pelo cansaço se por aquele arrepio que sentia cá dentro…

A tarde passou a correr, finalmente era 6ª feira à noite e ia poder relaxar. Cheguei a casa preparei um banho de imersão bem cheio de espuma, acendi umas velas pela casa, liguei a aparelhagem, aqueci o meu balão de cristal e servi-me de uma dose generosa do meu whisky velho favorito.

Deixei-me ficar dentro da banheira a sentir a carícia quente da água e da espuma, a beber aquele néctar suavemente aquecido e a ouvir a minha música favorita até quase ao esquecimento.

Quando saí, o telemóvel tinha duas novas mensagens… respondi à primeira, abri a segunda e leio:

- Não quero acreditar que ainda esteja a trabalhar a esta hora! X

Estava datada das 20:15, mas já passava das 21:00h, ainda hesitei mas acabei por responder:

- Estava a tomar um belo banho de imersão, só agora acabei

- Bem me podia ter convidado…

- Não sabia que também gostava, hihihi! Fica para a próxima!

- Não me vou esquecer…

- Quem sabe… depois de um belo queijo, isso passa-lhe…

- Amanhã às 18, está bem para si?

- Não é um pouco cedo para jantar? Onde combinamos?

- Tomamos um aperitivo antes. Conhece o bar Luca, perto do Marquês? Às 18 espero-a lá!

- Se fica em Lisboa, hei-de encontrar… não se preocupe!

- Durma bem. Um beijo X

6.


Do varandim do hotel a manhã parecia radiosa. O mar estava calmo, com aquele azul-esverdeado que só ele tem. Do vento das manhãs dos dias anteriores, só restava uma brisa morna que antecipava o Verão e me confortava o espírito, enquanto o pequeno-almoço me confortava o estômago.


Lembrava-me dela, exactamente ali. Da sua voz rouca, do ar distante e próximo , da sua forma de me chamar para sí e de me manter a uma distânia de segurança ao mesmo tempo. Apenas aquele sms a traíra. Notava-se que fora produto de um impulso e quando assim é.... Se calhar devia ter avançado um pouco mais.


Ao fim de uns anos a frequentar hoteis fica-se com anti-corpos em relação a certas situações. Um dos anti-corpos que criei foi contra gente que acha que basta estalar os dedos e os homens ficam a babar. A esta distância não me pareceu ser o caso. A verdade é que continuava a pensar no assunto.


Entre a papaia e o pão de sementes com requeijão e doce de abóbora peguei no telefone para reler as sms do dia anterior. Tinha uma nova.


- Dormiu bem?


- Muito bem. Não se devia ter ido embora. O dia está bem melhor que ontem. Estou na "nossa varanda" a tomar o pequeno-almoço.


Continuei a comer calmamente, já com o telefone à frente. Pouco tempo depois, nova mensagem:


- Quer companhia?


- A essa distância parece muito mais afoita. Gostava de ter ficado?


- Sempre era melhor que estar a trabalhar.


- Um mal menor...


- Não foi isso que quis dizer.


- O que é que quis dizer?


- Gostava que eu tivesse ficado?


- Não se responde a uma pergunta com outra.


A resposta não veio. Tomei café e dirigi-me para a piscina do hotel. Quando estava a sair da água ouvi o sinal de nova sms a chegar.


- Gostava...


- De quê?


- De ter ficado.


- Para não ter que ir trabalhar ou pela companhia?


- Ambas as coisas.


- Meio obrigado.


- Porquê?


- Só posso agradecer pela parte que me toca. Acredito que o senhor das sms também tenha tido peso na sua decisão. Continua sem dizer quem é?...


- Neste momento é você.


- Não se notou muito que tivesse vontade de ficar.


- Você também não fez muito por isso...


- Não gosto de ser inconveniente. O que é que gostava que eu tivesse feito?

5.


- Vou tratá-lo por X, agrada-me o mistério, Mr. X… o sorriso maroto deve ter sido notório, tenho uma cara que não esconde nada, mas fez de conta que não percebeu.

Despedimo-nos com um beijo na face e entrámos nos quartos… por momentos deixei-me ficar encostada à porta, sentia agora o coração que parecia querer saltar do peito, tal era a intensidade com que batia…

Deixei-me escorregar encostada na porta e fiquei sentada no chão a pensar no que se estava a passar comigo. Fui acordada do torpor pelo toque do telefone do quarto…

- Sim…?

- Como está? Já pronta para dormir?

- Nem me deu tempo… dê-me um minuto para me despir…

- Tem a certeza que não precisa de ajuda…?

O riso incontido soltou-se de novo, desta vez mais forte.

- Acha que já estou incapaz de me despir? Aguento beber bem mais…

- Acredito! Mas tem-se defendido sempre…

- Estou cansada, apenas isso, e o dia de amanhã vai ser longo e duro.

- Vou deixá-la descansar, gostei do seu timbre rouco ao telefone…Tenha uma boa noite!

- Para si também!

Esta viagem estava a tornar-se interessante… sentia-me extenuada, nem a televisão liguei e em pouco mais de 10 minutos estava a dormir.

De manhã reparei num papel, no chão, junto à porta do quarto, apanhei-o e deparei-me com um recado:

X

91*******

Ao seu dispor

Tenha um bom dia!

Guardei-o no bolso do casaco antes de sair e nunca mais me lembrei dele… o dia passou rápido e intenso, as reuniões sucederam-se umas às outras, o almoço a correr, no fim a apresentação para o grupo… entrámos no carro, para regressar a Lisboa, já passava das 7 da tarde e a viagem era longa.

Parámos numa área de serviço para comer qualquer coisa, quando meti a mão no bolso à procura do isqueiro senti o papel, tirei-o e fiquei a olhar para o número… nahhhh! Voltei a guardá-lo e acendi um cigarro.

De volta ao caminho, o bendito papel parecia querer queimar-me o bolso… tirei-o e decidi mandar um sms:

Um beijo, a caminho de Lisboa

Outro, a olhar o mar no terraço e a pensar em si. X
– respondeu

Que tenho eu de especial para que pense em mim?

Um dia talvez lhe explique…

Calei-me. Que raio estava eu a fazer? Apetecia-me provocá-lo, fazê-lo dizer aquilo que me apetecia ler, desafiá-lo a encontrarmo-nos noutro local, noutras circunstâncias… mas o bom senso foi mais forte.

Encostei a cabeça no banco e deixei-me embalar pelos sons do Oceano Pacífico, já só o oiço quando regresso assim tarde de viagem… o pensamento estava disperso, vagueando de novo… só quando senti a iluminação da 2ª Circular regressei à realidade, era 1 da manhã, mas estava quase em casa.

Entrei, larguei as malas, fui-me despindo em direcção ao quarto e fui tomar um duche rápido, quando ia para desligar o telemóvel reparo que tinha uma nova mensagem.

Já dorme?

Quase, estou mais morta que viva!

Tenha uma boa noite…

Adormeci a pensar naquela frase: Tenha uma boa noite...

4.


- Foi muito amável ao emprestar-me o seu casaco à pouco. Mais uma vez, obrigada.


- Não me agradeça. O seu cheiro ficou nele. Foi compensação suficiente.


- ...


- Peço desculpa. Não a queria embaraçar. A verdade é que foi muito agradável. Posso perguntar se está por aqui em trabalho?


- Infelizmente. E você?


- Uma mistura. Vim a trabalho mas aproveitei para descansar um pouco. Vou ficar mais dois dias e depois volto ao "inferno".


- Porque é que presumiu que eu estava em trabalho?


- Achei a sua companhia ao jantar demasiado formal para ser prazer. Juntando isso com o facto de os ter abandonado para vir para aqui, acrescentando as sms durante o jantar... Fiquei com a sensação de que a companhia que desejava não estava ali.


- Estava a espiar-me? Isso é muito feio...


- Apenas a admirá-la e a lembrar-me do seu cheiro no meu casaco. Por momentos pensei que tinha corado quando me viu. Depois, reparei que não era eu o culpado.


- Tem sempre tantas certezas a respeito de tudo?


- Posso perguntar quem era? Marido?


- Não.


- Não era o seu marido?


- Não pode perguntar...


Estava a adorar aquele risinho que, junto com o facto de estar a corar novamente, indicavam que algo estava a ter efeito. Eu, ou o alcool? Seria isso importante? Nem tanto. O alcool não inventa nada, só nos desinibe.


- Não queria ser indiscreto. Peço desculpa.


- Não peça. O meu estado civil não me define. Apenas isso. E você? É casado?


- Cada vez menos.


- Devia-se criar esse estado civil, não acha?


- Se calhar devia acabar-se com os estados civis. Resolvia-se muita coisa. Posso trazer-lhe mais uma bebida?


- Está a fazer-se tarde. Na verdade, acho que me vou deitar, apesar da agradável companhia. Amanhã tenho um dia comprido, que acaba numa viagem para Lisboa.


- Nesse caso subimos juntos. Parece-lhe bem?


- ...


Entrámos no elevador. Senti-a corar de novo quando se apercebeu que estávamos no mesmo piso e ainda mais quando chegámos à conclusão de que os nossos quartos ficavam quase em frente um do outro. Não fiz um convite forçado nem esperei que me convidasse a entrar.


- Posso ligar-lhe? Podemos conversar mais um pouco enquanto não adormece.


- Acho que sim. Tem nome? Cavalheiro do casaco quentinho...


- O meu nome não me define...

3.


Subo ao quarto com a sensação de frio no corpo e de arrepio na pele… a temperatura agradável do quarto começa a reconfortar-me.

Tenho quase uma hora até ao jantar, meto-me debaixo de um duche bem quente, deixo-me ficar a saborear cada gota que me escorre pelo corpo aquecendo-o… preciso de tirar o arrepio daqueles olhos da minha pele…

Quando, por fim, saio já tenho 3 mensagens no telemóvel, vou respondendo:

Desço dentro de 10 minutos, podem ir andando para o restaurante.

Mais um jantar sem ti… fazes-me falta…

Visto uma roupa mais confortável, pego num agasalho e desço.

Jantamos e vamos planeando o dia seguinte, o telemóvel vai vibrando com uma mensagem ou outra e vou respondendo, sempre com a sensação de estar a ser observada… até que o vejo sentado ao balcão no bar…

Os olhos negros estão de novo postos em mim – respondo à mensagem
Provoca-o! - responde-me
Tonto! Sabes que não o faria…

Não consigo deixar de corar quando os nossos olhos se cruzam de novo…
Continuamos a conversar, já passa das 11h e ainda estamos à mesa…

- Preciso de fumar um cigarro, desculpem.

Decidem subir, deixando-me só. Procuro o empregado e peço-lhe um café e um whisky velho em balão aquecido, servido no terraço.

Sento-me confortavelmente num sofá de canto, a ouvir o mar e a saborear cada baforada do cigarro, de balão na mão… o telemóvel já parou de receber mensagens, e a minha mente dispersa-se…

O vapor ligeiramente aquecido do álcool tem o dom de me fazer voar, sinto-o nas narinas e nos lábios… fico a apreciar o seu gosto aveludado… apetecia-me uma massagem para libertar a tensão dos músculos, o duche não foi suficiente…

- Posso fazer-lhe companhia, agora…?

Só consigo vislumbrar-lhe o vulto à contra-luz, mas a voz ligeiramente rouca é inconfundível…

- Claro que sim, mas agora estou agasalhada… o risinho nervoso e incontido solta-se de novo.
- Já reparei que não precisa dos meus préstimos, mas tinha esperança que da companhia…

Sinto-lhe o tom trocista, espero que não tenha percebido que me fez corar de novo. Senta-se ao meu lado, próximo, demasiado próximo até… consigo sentir o calor da sua perna através da roupa, o cheiro da barba acabada de fazer, o perfume amadeirado, o brilho no olhar…

Mais uma vez, descaradamente, aquele olhar me observa, me perscruta agora o rosto… como se me quisesse ler o que me vai na alma… mais uma vez não consigo evitar o arrepio…

2.


Fiquei a observá-la enquanto se dirigia para o elevador, o chamava, entrava nele. Só um ultimo olhar, já com as portas a fechar denunciou a sua curiosidade.


Estaria sozinha? A fazer o quê, ali, a meio da semana? Não perdi de vista o percurso do elevador que parou no 5º piso. O mesmo em que estava hospedado. Apenas uma feliz coincidência. Resolvi subir ao quarto, tomar um banho e rever as notas do trabalho desse dia, numa preparação do seguinte.


Tive por momentos a sensação de que, no quarto ao lado, alguém estava no duche. Até podia ser impressão minha. Seria ela? Nem sequer sabia o seu nome mas a verdade é que ocupava o meu pensamento.


O seu perfume, misturado com o seu cheiro tinha ficado no meu casaco. Indelével mas perceptível, pelo menos para mim que me lembrava dele. Fiquei durante um bom bocado a trabalhar no quarto até decidir que não iria jantar mas apenas comer qualquer coisa no bar do hotel.


Do balcão do bar conseguia vê-la. Jantava, acompanhada de dois homens. Não me pareciam mais do que colegas. Apenas quando o telemóvel avisava da chegada de um sms o seu rosto se iluminava um pouco mais. Fui "apanhado" a olhar para ela numa dessas situações.


Uma expressão mista de gozo e constrangimento pela súbita partilha de intimidade surgiu no seu rosto. Não havia no entanto sinais de desagrado naquele olhar quando o desviou para responder à mensagem, senti-a corar ligeiramente quando respondeu. Teve o cuidado de não deixar o olhar resvalar na minha direcção. Notei que tinha de se esforçar para o fazer...

1.



O fim de tarde estava maravilhoso, raiado de sol e de pequenos farrapos de nuvens, fico a olhar o sol que mergulha, vermelho, no mar.

No bar do hotel o som suave, do jazz e dos blues, dava um ambiente aconchegante e acolhedor.

O amplo terraço sobre o mar estava agora deserto, eram horas de jantar e já todos se tinham retirado.

Deixei-me ficar de copo na mão, rodando-o e brincando com ele, de olhos perdidos no céu e no mar, embalada na música.

Busco com o olhar o barman, para lhe pedir outra dose com um leve aceno do copo. Quando o sinto junto a mim com o novo copo, pergunto:

- Pode-se fumar no bar?

- Não, mademoiselle, vai-me desculpar mas, só é permitido fumar no terraço.

- Obrigada...


Saio para terraço, a noite está a refrescar e a pele arrepia-se... acendo o cigarro e debruço-me ligeiramente sobre o parapeito, o mar bate nas rochas uns metros mais abaixo, sente-se o cheiro a maresia e a Lua começa a espalhar uma suave claridade de prata.

Os pensamentos vão vagueando, ao ritmo do mar, do cigarro que arde, do sabor macio do vinho, dos sons abafados que vêm do bar... quando sinto uma voz rouca que me diz:

- Permite-me...? enquanto um casaco, ligeiramente quente, assenta sobre os meus ombros.

- Obrigada...

Viro-me ligeiramente e deparo-me com uns olhos, lindos, negros, profundos... o meu ar de espanto deve ter soado a susto...

- Não pretendo incomodar, mas achei que devia estar a arrefecer... permita-me a ousadia...

- Mas... assim vai ficar ao frio...

- Ao seu lado, nunca!


Saltou-me uma gargalhada, incontida e algo nervosa... aqueles olhos, parecia que me liam...

- Não quer sentar-se um pouco? disse, enquanto apontava para um confortável sofá.

- Talvez noutra ocasião, agora é melhor ir mudar de roupa para jantar, está realmente a arrefecer...

Regressamos ao interior do bar, devolvo-lhe o casaco e agradeço com um beijo na face.

Enquanto me dirijo à porta não deixo de sentir um arrepio... aqueles olhos negros que me seguem, que me perscrutam os movimentos... Huumm... perturbante...