sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A.4



Não conseguia muito bem entender como tinha chegado àquele nível de envolvimento. Considerava-se uma mente livre e descomplexada, ainda que algo tímida, gostava de manter as relações no seu devido lugar, sem que interferissem com o resto da sua vida.

Quando as coisas se estavam a intensificar mais, fazia questão de esclarecer que não procurava alguém de quem depender, sempre gostara de ser independente…
Com ele tudo acontecera de forma algo estranha… talvez pelo facto de nem um nem outro estarem à procura de um amor, mas apenas a partilharem-se, sem segundas intenções.

Saíra há pouco de uma relação atribulada, e ele sentia-se insatisfeito com a vida e com o casamento. Nem um, nem outro, estavam com o coração disponível, nem dispostos a baixar as “guardas”… a amizade surgiu fácil e a partilha dos sentimentos e das frustrações só ajudou a cimentá-la.
Revelara-se mais que um D. Juan, um homem com um coração bonito e carente. Alguém que nunca conhecera o verdadeiro amor, e por isso o procurava em cada mulher, sem saber sequer o que procurava…

Depois a química fora mais forte, e a atracção levou-os a partilhar os corpos, a descobrir o prazer um do outro, a desejar sentir a pele na pele, a boca na boca, no corpo…

Encontraram-se num motel, soltando a loucura dos corpos, do desejo…

Saíra de lá a pensar que podia ter perdido uma amizade interessante, apenas por ter deixado extravasar o desejo; a remoer por ter ultrapassado a barreira, que sempre se impunha, de não misturar trabalho e prazer…

No dia seguinte, a reacção dele fora de tal forma boa, que a fizera esquecer por completo os princípios e os preconceitos… passaram a sair e a estar juntos para almoçar quase todos os dias, às vezes aproveitavam para ficar a “namorar”, outras “davam uma fugida” para uma cama…

Rapidamente o seu coração se foi rendendo, entregando, baixando todas as “guardas” e permitindo que o seu amor o penetrasse…

Agora era altura de ir de férias e não sabia como iria aguentar a separação. Queria muito pedir-lhe que viesse com ela, mas nunca o faria… sabia que ele tinha a mulher, as crianças, ainda que insatisfeito com a vida que tinha, era a que ele tinha escolhido…

Foi pondo, mecanicamente, na mala as roupas e os acessórios de que precisaria para as férias. Sabia que não iriam ser grande coisa, no estado de espírito em que se encontrava, mas o espaço e o tempo para reflectir iriam fazer-lhe bem…

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A.3


Chegou a casa, tomou um duche longo e quente, ficou a sentir a água que lhe escorria pelo corpo empurrando o cansaço e o stress com ela… sentia-se mais calma, ainda que com uma sensação de vazio interior.

Enrolou-se no roupão, serviu um copo de vinho tinto, ligou a música e sentou-se a olhar em frente, sem ver… tinha de ir fazer as malas para as férias, mas nem sequer lhe apetecia muito.

Deu por ela a olhar para os efeitos do fumo do cigarro evoluindo no ar. Precisava daquelas férias como do ar que respirava, sentia-se cansada, esgotada. Mas estava a custar-lhe imenso o afastamento forçado…

Nunca lhe tinha passado pela cabeça que aquela relação a viesse a “agarrar” tanto… ele era, tipicamente, o sedutor… um daqueles homens que, ainda que casado, nunca deixaria de espalhar charme e sedução no seio das mulheres… percebera isso desde o 1º minuto, e ficara convicta de que, por o ter percebido, lhe estaria imune. Engano fatal…!

Um dia, no início do ano, aceitara ir tomar uma bebida com ele ao fim da tarde. Ficaram a conversar sobre os gostos pessoais, sobre os prazeres que ambos gostavam de desfrutar, sobre os caminhos que as vidas tomam, muitas vezes sem que se entenda muito bem porquê, nem como…

Em pouco tempo, e com mais 2 ou 3 saídas breves de fim de dia, estava completamente envolvida, e rapidamente se tornaram amantes… sempre que podiam, escapavam-se à hora de almoço para estarem juntos, às vezes simplesmente para almoçarem calmamente numa esplanadinha que tinham descoberto, enquanto se namoravam com os olhos e iam falando de coisas absolutamente normais.

Agora, pela 1ª vez sentia que tinha de se separar dele, e estava a custar-lhe imenso…