
A brisa de fim de dia trazia-lhe o aroma do mar e da ria, e os sons das vozes transportavam-na para longe… sentia-se absorta, ausente, caminhava calmamente, sem maior motivação que a fome que se começava a fazer sentir…
Os passos levaram-na a sair do aldeamento em direcção à vila, talvez aquele restaurante de que tanto gostava estivesse aberto…
O movimento nas ruas destoava dos seus sentimentos, no meio de tanta gente sentia-se a caminhar sozinha, mas, ainda assim, respirava fundo a agitação para ver se se animava.
Distraída com os seus pensamentos, ia chocando com um fulano, à entrada do restaurante, que gentilmente lhe cedeu a passagem.
- Mesa para dois? Ainda tenho uma.
- Não estamos juntos...
- Vou pedir-lhe então que aguarde um pouco. Sexta-Feira à noite, sem marcação...
…
Decidiu convidá-lo a partilhar a mesa, não lhe parecia correcto que ficasse à espera depois de ter sido tão gentil.
Sentaram-se e foram vendo a lista.
- Aceita tomar um vinho comigo, a acompanhar a refeição?
- Sim… nem vou conduzir mais hoje…
Fizeram o pedido e ficaram em silêncio, frente a frente, sem muito a fazer… já se arrependia de ter feito a sugestão, mas seria falta de educação não o fazer… aproveitava para o ir observando discretamente, tinha um ar calmo, mas algo conturbado, um não-sei-quê de atribulado, e as mentes atribuladas sempre a atraíram, pensava…
- É sempre tão observadora e silenciosa…?
- Desculpe… nem sempre… deve ser ainda a ressaca da semana de trabalho e da viagem. Está de férias…?
- Apenas a aproveitar um fim-de-semana em paz…
- Este é dos melhores locais que conheço para isso, por isso cá estou, ainda que por mais uns dias. Acho que não aguentaria nem mais um dia na confusão da cidade… estou para aqui a maçá-lo com a minha tagarelice.
Deu uma risadinha traquina, que lhe era muito própria.
- É a descompressão do stress. Eu próprio ainda estou a descomprimir, nada melhor que esta brisa do mar, um bom jantar e um bom vinho, vai ver que se sente outra no fim!
A refeição estava excelente, como aliás era habitual naquele pequeno restaurante. Quando terminaram convidou-a para tomar um digestivo.
- Se não me levar a mal, convido-o a tomá-lo no bar da piscina do aldeamento onde estou. É mesmo ao cimo da rua, e com este tempo é muito agradável ficar na esplanada… já estou doida por um cigarro!
Sentaram-se numa mesa perto da água, mais afastada dos ruidosos ingleses que viam um jogo de futebol no interior do bar, a conversar sobre a beleza daquele local e sobre quanto gostavam de “fugir” para aquela zona.
Quando o cansaço se começou a fazer notar, ele ofereceu-se para a acompanhar até à porta do apartamento.
- Obrigada pela companhia, foi muito agradável…
- Igualmente! Tenha uma boa noite.
Sem comentários:
Enviar um comentário