terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A.6

- ...Qual é a "tanga" desta vez?


- Nenhuma. Vou apanhar ar.


- Faço uma ideia com quem...


- Sabes mais do que eu. Queres elucidar-me?


- Não me faças de parva !...


O diálogozinho do costume ainda lhe martelava na cabeça. Tinha feito o caminho em piloto automático. Estava quase a chegar. A zona para onde ia trazia-lhe à memória instantâneos de uma adolescência feliz, quando alternava manhãs de pesca, tardes na praia e noites no aldeamento da zona onde a "pesca" era outra. Faziam um belo quarteto de engatatões de calções.


Apesar do insucesso quase constante em ambos os tipos de pesca, eram momentos que recordava com nostalgia. dos outros três só sabia de um. Os manos emigraram para os estados unidos.


Chegou em cima da hora do jantar, arrumou o carro, desligou o telemóvel e percorreu os poucos metros até ao restaurante. O ar quente a bater-lhe na cara trouxe-o para outra realidade. Deixara o casamento em Lisboa. Por dois dias estava por sua conta e não queria perder um minuto. O dia chegaria em que isso também se resolveria. Por agora só queria um jantar sempre bom... E paz.


Absorto nos seus pensamentos quase chocou com uma mulher que ia a entrar. Automáticamente cedeu-lhe a passagem. Nunca foi o protótipo do cavalheiro, achava isso uma forma de subalternisar as mulheres, mas a educação falou mais alto.


Entraram quase ao mesmo tempo.


- Mesa para dois? Ainda tenho uma.


- Não estamos juntos...


- Vou pedir-lhe então que aguarde um pouco. Sexta-Feira à noite, sem marcação...


- Qualquer canto serve. Estou sózinho.


- Eu também. Como foi simpático ao ceder a passagem não me importo de partilhar a mesa.


- Seria um prazer, mas não quero ser inconveniente.


- A sério. Se não o tivesse feito tinha entrado à minha frente...


- Agradeço então...


Era um olhar algo basso, aquele que fitava pela primeira vez. Notava-se um misto de segurança e sacanice muito lá no fundo, por debaixo de uma indiferença que lhe pareceu sincera.

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